O despojamento — Português

Ir para o conteúdo. | Ir para a navegação

Ferramentas Pessoais

O despojamento

Um texto sobre o caminho espiritual do despojamento à luz da Bíblia e da experiência de Francisco de Assis, entre o maravilhamento, a conversão e a confiança em Deus.

Não podemos abordar esta questão sem antes estabelecer um fundamento: a admiração e a misericórdia. A experiência franciscana mostra-nos que o despojamento é parte integrante disso. A admiração e a misericórdia exigem despojamento, e não podemos experimentà-lo senão tendo feito a experiência das duas primeiras.

Estes três elementos atravessam toda a Bíblia:

 

No Antigo Testamento, tomemos como exemplo Abraão e Sara, a quem Deus faz misericórdia concedendo-lhes um filho. Sara declara, cheia de admiração: “Quem diria a Abraão que Sara amamentaria filhos? Contudo, dei-lhe um filho na sua velhice” (Génesis 21, 7). De acordo com o mesmo capítulo, versículo 5, Abraão tinha 100 anos. Sara, 90 anos, segundo o capítulo 17, versículo 18.

 

O despojamento será logo anunciado quando Deus pede a Abraão que sacrifique o seu filho Isaac (Génesis 22, 1-2).

 

No Novo Testamento, é Jesus. São Paulo escreve na sua carta aos Filipenses: “Ele despojou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo” (2, 7).

 

Desde o Jardim do Getsémani até à sua morte na cruz, Jesus viveu este despojamento. No Getsémani, clamou: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” (Lc 22,42). E na cruz, não é um sentimento de fracasso que habita em Jesus, mas sim um completo despojamento de si mesmo nas mãos de Deus: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27:46). Um grito de angústia e sentimento de abandono. E que pode fazer senão colocar-se inteiramente nas mãos do Pai: “Jesus clamou em alta voz: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23, 46).

Paulo convida os cristãos a entrarem no mesmo processo: “Trata-se, pois, de despir-se do homem velho, corrompido por desejos enganadores.” (Ef 4:22).

 

“Mas agora rejeitai também vòs tudo isto: ira, raiva, maldade, calúnia e linguagem obscena.” Não mintais uns aos outros jà que vos despistes do homem velho com as suas ações e vos revestistes do homem novo, aquele que, para chegar ao conhecimento, não cessa de ser renovado à imagem do seu Criador”. (Cl 3:8-10)

 

E quem é este homem novo? “Portanto, já que foram escolhidos por Deus, santificados e amados por Ele, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericordia, de bondade, de humildade, de mansidão e de paciência suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Perdoai-vos como o Senhor vos perdoou. Acima de tudo, porém, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. Que a paz de Cristo reine nos vossos corações, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos” (Cl 3:12-15).

 

Deus mostra-nos misericórdia ao escolher-nos; isso já é motivo suficiente para nos maravilharmos e agradecermos. Ao mesmo tempo, devemos despojar-nos do homem velho, o que é doloroso, mas conduz à alegria e a uma paz profunda.

 

A experiência de Francisco pode ajudar-nos.

 

E comecemos pela admiração.

 

Francisco é um encantado de Deus.

 

A admiração e a completa dependência de Francisco em relação a Deus só podem ser explicadas por este fascínio, de natureza mística (sendo a mistica este sentimento muito forte, a certeza, da presença de Deus na minha vida). Nos seus louvores a Deus, Francisco utiliza uma infinidade de nomes para O caracterizar e expressa o seu fascínio e gratidão de muitas formas:

 

"Só Tu és santo, Senhor Deus, Tu que operas maravilhas.

Tu és forte, Tu és grande, Tu és o Altíssimo, Tu és o Todo-Poderoso…

Tu és o único bem, Tu és todo o bem, o bem supremo…

Tu és alegria, Tu és a nossa esperança e a nossa alegria…"

 

Mas de onde lhe vem este sentimento?

 

Não se trata simplesmente de temperamento:

É certo que é alguém que precisa de irradiar energia, ser visto, que é uma pessoa sociável, que precisa dos outros para existir. Lembremo-nos da sua juventude e tentemos imaginá-lo. Tinha sido eleito pelos jovens de Assis para ser o seu rei.

 

É alguém cheio de simpatia, bondade, bastante artístico, um poeta, um músico, um pouco como os trovadores... mas desde ai até experimentar como doçura aquilo que lhe parecia abominável: “Quando eu ainda estava no pecado, a visão dos leprosos era insuportável para mim. Mas o Senhor conduziu-me até eles; tive misericórdia deles; e, ao regressar, o que me parecera tão amargo transformou-se em doçura para o espirito e para o corpo” (Test. 1b-3a);

... a louvar o Irmão Sol, a Irmã Lua, o Irmão Fogo, o Irmão Vento e até a Irmã Morte.

…a celebrar a perfeita alegria (Fioretti 8)

existe ainda algo como um abismo – e o que o ajudará a atravessá-lo é a sua experiência mística.

 

Nem se trata simplesmente de que todos são belos, todos são bondosos seja por ingenuidade, seja por uma espécie de beatitude insensata, seja por falta de experiência. Trata-se de uma abordagem muito mais positiva e muito mais profunda que deriva da Bondade inerente de Deus: em cada ser humano existe “um potencial principesco”, tanto como condição como destino. Geralmente, quando falamos de igualdade, é em termos de nivelamento por baixo. Para Francisco, o nivelamento é por cima: em todos, pela graça do Rei dos reis, existe uma condição e um destino principescos.

 

Mas quando falamos de admiração, devemos falar imediatamente de louvor e de agradecimento. A admiração diz respeito à pessoa que experimenta esse sentimento. O louvor e a acção de graças dizem respeito à pessoa a quem esse sentimento deve ser expresso, a quem devemos expressar a nossa gratidão. Os dois não estão necessariamente ligados: pode-se experimentar admiração e não saber a quem agradecer. Chesterton escreve que o pior momento para um ateu é quando experimenta uma gratidão sincera e não tem a quem agradecer.

 

Da admiração diante de Deus Salvador à admiração diante de Deus Criador

 

Não podemos evitar uma questão importante se queremos compreender Francisco. Tentemos imaginar o itineràrio de Francisco, as fases por que passou desde a juventude até à conversão, e os longos anos que se seguiram. O que lhe aconteceu?

 

Pode-se dizer: ele experimentou Deus. Sim! É certo que passou de um cristão comum, para quem Deus existe mas é distante, para um crente. Mas que tipo de Deus experimentou ele? Que rosto de Deus viu ele? Francisco, antes de mais, experimentou a salvação; ficou admirado por Deus o ter salvo, por Ele lhe ter mostrado misericórdia. Só mais tarde se maravilhou com outro aspecto de Deus: o Deus Criador. A princípio, transbordou de gratidão porque Deus o salvou. Depois, transbordou de gratidão porque viu Deus como a fonte de tudo.

 

Francisco, maravilhado com Deus Salvador

Na sua juventude, o que o caracterizava era a sua sede de glória. O que ele ambicionava era a glória da cavalaria. Sonhava em ascender socialmente, em alcançar o estatuto de nobre através de feitos heróicos e de uma distinta carreira cavalheiresca. Mas depois, na guerra entre Assis e Perugia, foi feito prisioneiro e passou um ano em cativeiro. Os biógrafos contam que lutou para recuperar. Esse foi o seu primeiro revés, um primeiro passo neste processo de expropriação. Algum tempo depois, preparou-se para combater na Apúlia ao lado de Walter de Brienne, ao serviço do Papa. Mas em Spoleto, teve um sonho que o impeliu a regressar a casa. As suas certezas foram abaladas. Um segundo revés e um segundo passo na expropriação. Era um beco sem saída, um buraco negro, uma depressão que duraria mais de um ano. Por quê? Porque regressa a Assis parecendo completamente ridículo. Precisava dos outros para existir, precisava de glória, precisava de cavalaria: fez-se louco. O seu ideal se despedaça. Ele já não existe para ninguém.

Os seus antigos amigos tiram-no do desespero. Organiza uma festa e, ao sair, Francisco deixa os outros passarem e é encontrado em estado de êxtase. Mais tarde, dirá que, se o quisessem despedaçar, não teria mexido um músculo: acabara de experimentar a ternura de Deus. Deus fá-lo sentir a ternura de uma presença. Esse é o ponto de viragem. A partir de então, experimenta que é salvo, gratuitamente, pela pura graça.

 

Após a sua peregrinação a Roma e o seu encontro com o leproso, Francisco retirou-se cada vez mais para lugares desertos até que um dia, na capela de São Damião, ouviu uma voz do crucifixo a dizer-lhe: “Vai e repara a minha casa, que, como vês, está em ruínas”. O mistério da cruz tornou-se para ele uma realidade, e dentro dele nasceu uma gratidão, uma admiração diante deste Pai que nos deu um Filho como este, que chegou ao ponto de morrer na cruz para nos salvar.

 

Em seguida, veio a abnegação perante o seu pai no tribunal episcopal.

 

B) Francisco maravilhado diante do Deus Criador

 

Francisco maravilha-se com o milagre da existência das coisas que ele conduz espontaneamente à sua origem. È o sentimento da gratuidade das coisas, do ser, dos entes. Até ao fim, verà Deus Pai Criador, todo-poderoso, na perspectiva da Beleza e da Bondade, das quais as criaturas são reflexos. “Em tudo”, escreve Celano (2, 165), “admirava o Criador… Ele alegrava-se com todas as obras que provinham da mão de Deus, e desse espectáculo que fazia a sua alegria, ele subia até Aquele que é a causa… Sabia contemplar o Mais Belo numa coisa bela; tudo o que de bom encontrava, cantava-lhe: ‘Aquele que me fez, Ele é o Mais Bom’. E um pouco mais adiante: “Pois a Bondade que está na origem de todas as coisas e que será um dia totalmente presente em todas as coisas, jà nesta vida, aparecia aos olhos do santo, todo inteiramente em todas as coisas”. Para Francisco, tudo é um símbolo do Deus Trino e canta a Sua glória. São Boaventura, em LM 9, 1, escreve: “… ele seguia os passos do seu Amado em todos os lugares da sua criação, usando todo o universo como uma escada para subir e alcançar Aquele que é todo desejável. Em cada criatura, como em tantos outros ramos, ele percebia com extraordinária piedade a efusão única da bondade de Deus, e como se a harmonia preestabelecida por Deus entre as propriedades naturais dos corpos e as suas interações lhe parecesse música celestial, ele exortava todas as criaturas, à maneira do profeta David, a louvar o Senhor.” Uma pedra, para Francisco, revelava algo de Deus: é dura, é resistente, é forte. Na Bíblia, dizemos de Deus: “Tu és a minha Rocha”. Quando via um verme, apanhava-o porque se lembrava do que é dito sobre o Senhor no Salmo (21,7): “Eu sou um verme e não um homem”.

 

Esta atitude bastante original de Francisco darà origem a uma escola de pensamento franciscano. São Boaventura dirà que toda a criação canta a glória de Deus inconscientemente, mas o homem, que é um elemento da criação, tem um papel sacerdotal a desempenhar. É chamado a exprimir, conscientemente, por si e pela criação inconsciente, o louvor.

 

Acrescente-se que, para Francisco, a criação não é um acontecimento passado. É uma ação presente e contínua de Deus Criador: “Amemos todos o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa mente, de todo o nosso desejo… Ele deu-nos e dá-nos corpo, alma e vida… Ele fez e continua a fazer-nos somente o bem” (1 R. 23, 8). Este é também motivo de admiração e louvor.

 

C) A identificação com Cristo

 

No Evangelho pela festa de São Matias, ouvido na Porciúncula, Francisco descobre um caminho vivo de salvação. Descobre a condição humana do Cristo pobre e exclama: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu anseio realizar de todo o coração” (I C 22). O que eu quero: nada de dinheiro, nada de pão, nada de alforge, nada de bastão, nada de sapatos, nada de duas túnicas.

 

Outro objeto de admiração encontra-se na Admoestação 5: “Considera, ó homem, o grau de perfeição a que o Senhor te elevou: Ele criou e formou o teu corpo à imagem do corpo do seu Filho muito amado, e o teu espírito à semelhança do seu espírito.” Fomos criados à imagem e semelhança do Filho. Ao mesmo tempo, o primado de Cristo na criação ilumina de admiração o seu olhar.

 

A partir deste ponto, Francisco procurará conformar a sua vida à de Jesus. Para isso, aproxima-se da história a partir do seu fim. Jesus morreu por nós; Quero morrer por Ele. Este é o desejo constante do martirio que nele habitava. Será concedido de duas formas: por um lado, pelos estigmas, e por outro, pela sua doença grave. Cito a Legenda Perusina 43: “Francisco, alegra-te no meio dos teus sofrimentos; de hoje em diante, vive em paz como se já participasses do meu Reino”, disse-lhe Jesus. “Mas, entretanto, os Fioretti relatam este texto, humanamente masoquista, da ‘Perfeita Alegria’ (Fioretti 8).

 

Para explicar porque é que este ápice da perfeita alegria para Francisco é precisamente o ápice da abjecção, deve acrescentar-se um terceiro elemento.

O que Francisco ambicionava acima de tudo era poder assemelhar-se a Jesus até na sua carne. Ser uma cópia de Jesus. Assim se explica o seu tema da Perfeita Alegria. É a alegria de se poder identificar com Cristo sofredor. Identificação com o Filho que o Pai nos deu. Por outras palavras, assemelhar-se a ele, não só nos seus sentimentos, mas também na sua carne, é a maior graça que Deus lhe pode conceder.

 

Os vários episódios relatados neste texto dos Fioretti encontram-se na vida de Jesus. ‘Veio para o que era seu, e os seus não o receberam…’, diz o prólogo de S. João. Os fariseus, os sacerdotes, os escribas rejeitaram a sua pregação. Chamaram-lhe falso profeta. Tomaram-no por autro. Houve a vontade de O excluir, de O exterminar: “... se ele viesse com um pau nodoso ... e nos desse desapiedadamente com o pau ...” È uma frase forte. No momento da sua morte, Cristo é abandonado por todos, renegado. O cume do amor é a Cruz.

 

Esta passagem remete-nos ainda para um episódio crucial da vida de Francisco: a sua crise com a Ordem. Lemos em 2 Celano 145:

“Não me consideraria um frade menor se não estivesse neste estado de espírito; sou o superior dos meus irmãos, vou ao capítulo, prego, dou as minhas opiniões e, quando termino, dizem-me: ‘Não estás à altura da tarefa para nós; és analfabeto, desprezível; não te queremos como nosso superior porque te falta eloquência, és simplório e de mente fechada’. E sou vergonhosamente expulso, carregado de desprezo universal. Pois bem, digo-te, se não aceitar tudo isto com o mesmo coração aberto, com a mesma alegria interior, e mantendo a minha vontade inabalável de santificação, não sou, de modo algum, um frade menor.”

Temos a transcrição exata disto na Legenda Perusina 114: “Enquanto o Beato Francisco se encontrava no Capítulo Geral de Santa Maria da Porciúncula, chamado Capítulo das Esteiras, que contou com a presença de cinco mil frades, vários deles, homens sábios e instruídos, dirigiram-se ao cardeal, o futuro Papa Gregório, que estava presente no Capítulo. Pediram-lhe que persuadisse o Beato Francisco a seguir o conselho dos frades eruditos e a deixar-se guiar por eles…”

Francisco participou na cruz de Cristo, mas mais ainda, no próprio âmago da sua angústia e miséria, Cristo Jesus uniu-o a Si. A sua experiência tornou-se um lugar de encontro com o amor. Esta experiência tornou-se o lugar de uma conformidade interior com a disposição de Jesus que “esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo ... rebaixou-se a si mesmo tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2).

 

Este episódio da vida de Francisco permitiu-lhe experimentar e aprofundar a agonia do Filho: a ausência do Pai e o sentimento de fracasso. Através desta experiência, Francisco sentiu-se chamado a seguir Cristo até ao fim. Cristo tinha morrido. Entregara-se ao Pai em total despojamento, em total desapropriação. Tinha aceitado a derrota. Cabia-lhe a ele, Francisco, embarcar nesta viagem humana e espiritual. Essa viagem mística. Ainda não sabia ainda exatamente o que significava tornar-se semelhante ao Senhor, nem até onde isso poderia ir. Mas precisava de segui-lo até ao fim. Já não bastava ser pobre como ele, bom como ele pelos caminhos. Já não bastava retirar-se como Ele para lugares desertos para o encontro íntimo com o Pai. Precisava de dar um passo decisivo com Ele para uma morte misteriosa que abre o caminho para a vida. Precisava de caminhar com Ele por uma senda de renúncia, de desprendimento, de entrega, que conduz ao mundo da ressurreição. Ao aceitar isso, descobre outra certeza: “Deus é, isso basta”. Através desta descoberta, ele pode ouvir aquela voz cheia de misericordia a dizer-lhe: “Pobre homenzinho; aprende que Eu sou Deus e deixa de te perturbar para sempre. Será porque te nomeei pastor do Meu rebanho que deves esquecer que Eu sou o Pastor principal? Eu escolhi-te expressamente, homem simples, para que fosse evidente a todos que o que Eu faço em ti não se deve à tua capacidade, mas à Minha graça. Sou Eu quem te chamou. Sou Eu quem guarda o rebanho e o pastoreia. Eu sou o Senhor e o Pastor. É da Minha responsabilidade. Não te perturbes.” (Sabedoria de um pobre-Eloi Leclerc)

 

Sabemos o que se seguiu: Francisco recebeu a graça da conformidade através da receção dos estigmas, e a sua admiração diante de Deus Criador é cantada no cântico do Irmão Sol.

 

Desapropriação, despojamento total até na morte, pois ele acolhe-a como irmã e pede para morrer nu sobre a terra.

 

E como podemos, hoje, seguir Cristo à maneira de Francisco de Assis?

 

Os passos são sucessivos.

 

O primeiro é estar com Cristo e deixar que Ele esteja connosco no nosso dia a dia, como homens e mulheres. Procurar viver como Ele. Segui-Lo olhando para Ele, ouvindo-O. Mas depois chega o momento em que um obstáculo nos faz tropeçar. E aí parámos. É o que poderíamos chamar de companheirismo externo. Tudo seguia de acordo com a nossa perspectiva humana. Parar ou dar com Ele um passo decisivo para uma morte misteriosa que nos abre à vida. Devemos percorrer com Ele um caminho de renúncia, de desapropriação, de despojamento que nos conduz ao mundo da ressurreição.

 

A segunda etapa passa por uma profunda transformação do nosso ser: “Não sabeis vòs? Todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte? Fomos sepultados com Ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. Pois, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição.” (Rm 6, 3-5).

 

Poderíamos pensar agora que, para seguir Cristo, bastaria identificar-se individualmente com o seu ser, através da sua morte. Ora, esta é a terceira etapa. Paulo, ao conceder-nos o acesso a esta profunda compreensão do mistério da identificação com o ser, a vida e o destino histórico de Cristo, revela que isto não é tudo, que a identificação individual não existe sem a participação no crescimento do corpo de Cristo.

Seguir a Cristo não é meramente viver com Ele numa caminhada exterior, nem se trata simplesmente de realizar individualmente essa passagem interior e mística através da Sua morte para ressuscitar com Ele, mas sim de integrar-se ao Seu ser em crescimento “até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do Homem perfeito, à estatura de Cristo na sua plenitude” (Ef 4, 13), quando todos serão reunidos nEle, quando todo o ser e todas as coisas serão submetidas nEle. Assim, toda a criação será “liberta da escravidão da corrupção, para alcansar a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente.” (Rm 8, 21).

 

Em última análise, se desejamos seguir Cristo, não se trata apenas de estar misticamente unidos a Ele numa união individual, mas também de participar neste imenso nascimento de toda a criação, sabendo-se membro de um corpo, a Igreja, que é o corpo de Cristo em crescimento, encarregado de conduzir toda a criação para o seu fim e plenitude.

 

Seguir Cristo é, em última análise, através de uma misteriosa assimilação ao seu ser e à sua vida de amor, pelo Mistério Pascal de uma morte que é fonte de vida, contribuir com a nossa pedra na construção do mundo nele e compreender o nosso trabalho, os nossos amores, as nossas amizades, o nosso lar, os nossos compromissos sociais e políticos, como finalizados pela vinda de Cristo e, portanto, como fundamentos para o crescimento do próprio Cristo.

 

Tudo isto só pode ser vivido e realizado através da aceitação de um desapego, de um despojamento para a glória de Deus e salvação do mundo.

Fevereiro 2026

 

Frei Joseph Banoub (OFM)